segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Anti-definição de Anarquismo

Eu, como um bom anarquista, resolvi postar aqui alguma coisa sobre o assunto, como já fiz uma vez no começo do blog. Então vamos lá:


Mas não serei verdadeiramente livre apenas porque quero sê-lo, pois liberdade é algo que não posso fazer, nem criar; posso apenas desejá-la..."
Max Stirner,
em "O Ego e o que a ele pertence"


Falar sobre anarquismo quase sempre se constitui num erro: sendo o anarquismo o objeto de estudo, a primeira coisa que nossa mente ocidental cientificista se apressa a fazer é delimitar e defi­nir esse objeto. Definir o anarquismo é o maior golpe que se pode desferir contra ele. E se é ine­vitável que muitos chegam ao anarquismo ouvindo ou lendo alguma definição, para depois estabele­cer uma simpatia ao termo, é preciso, assim que se encontre uma maturidade mínima, esquecer sua definição, como quem cospe no prato que comeu, ou como diria Witengstein, chegando ao topo, li­vrar-se da escada que lhe levou até ali.

Aliás, definir o anarquismo tem sido uma pratica muito eficiente contra seu desenvolvimen­to e, por isso, muito utilizada pelos seus inimigos. Sejam os intelectuais de esquerda ou de direita, todos consideram o anarquismo como um movimento político, quando este na verdade é algo muito maior e muito mais importante.

Mas se a indefinição é condição existencial do anarquismo, este também é e sempre foi o cerne das críticas contra ele. Porém, se muitos dizem e ainda dirão que não se pode falar sobre algo tão incerto, que não possui uma definição concreta, verificada e comprovada; é preciso lembrar que nenhuma das ciências humanas e nem mesmo nas denominadas exatas, existe profundo consenso sobre seus objetos e métodos, surgindo daí diversas vertentes ou correntes. Sem contarmos ainda que, para uma maior sensação de homogeneidade ou consenso, a academia seleciona, de uma diversidade quase infinita de discursos, quais são os verdadeiros e válidos. Ou seja, se toda ciência estabelece seu cânone literário com seus autores e livros, não podemos esquecer daqueles tantos outros que são autores marginais ou ainda que se perderam nas areias do tempo, sem jamais deixar rastro na história. Isso sem considerarmos a situação atual da produção do saber acadêmico, onde alunos dão continuidade a sua iniciação científica da graduação em mestrados e doutorados, especializando-se cada vez mais em temas super-específicos, sem jamais conhecerem outras possibilidades teóricas. Isso sem contar, e é até ridículo levantar essa questão, que por mais próximo que seja o pensamento de um Saussure e de um Levi-Strauss, um aluno de letras jamais se interessará ou será motivado por seus professores a estudar um pouco de antropologia, ou ainda a ler um pouco de Freud ao pensar a Análise do Discurso, por ser aquela uma ciência de base para esta.

Assim, não há problema algum em termos em “anarquia” um conceito incerto e indefinido. Além do mais, como a física quântica já percebeu, assim como 0 e 8 são resultados concretos que podem ser entendidos e trabalhados, o aleatório também pode ser um resultado que se baste em sí, sem ser de fato coisa alguma, ou ainda ser ao mesmo duas coisas distintas ou ainda ser e não ser algo ao mesmo tempo. Esse ponto é crucial para entendermos o que Hakin Bey afirma sobre o caos: não uma impossibilidade de ordem ou uma mistura de ordens, mas uma multiplicidade de ordens distintas ocorrendo simultaneamente, mesmo aquelas que se anulam ou conflitam. Ou seja, o signo “caos” engloba em um único significado, todas as possibilidades. Embora todo esse pensamento pareça um silogismo, ou seja um pensamento vazio que tem sentido apenas dentro de seu enunciado, é a partir daí que podemos entender o anarquismo como um conceito vigorante e eficaz, uma libertação de fato e agora, não em um mundo que virá.

Sendo assim, talvez não seja possível afirmar se alguém de fato é anarquista ou não, mas isso é uma questão a ser deixada pra mais tarde.

Fonte: Anarquismo Agora.

Nenhum comentário:

Postar um comentário